Linhas, cores, ritmos, tensões, proporções, equilíbrios e atmosferas constituem o núcleo de observação da Gestalt da Alma. É através da organização visual que o desenho se torna capaz de revelar modos particulares de sentir, imaginar e experienciar o mundo. Contudo, existe um elemento que frequentemente permanece invisível: antes de surgir a primeira linha no papel, quase sempre surge uma palavra.
Por mais silencioso que pareça o acto de desenhar, ele raramente nasce do vazio. Existe normalmente uma pergunta, uma instrução, um convite ou uma sugestão que antecede a imagem. Mesmo quando ninguém fala, existem palavras que ecoam internamente na mente do participante. O desenho pode parecer visual, mas a porta de entrada para a sua realização é frequentemente verbal. Isto significa que nenhum desenho responde apenas à pessoa que o produz. Responde também à pergunta que o convocou.
Esta ideia possui consequências profundas para a Gestalt da Alma. Muitas vezes imaginamos que a interpretação começa quando o desenho está concluído. Na realidade, ela começa muito antes. Começa no momento em que uma palavra organiza o campo da experiência e orienta a atenção numa determinada direcção.
Podemos imaginar a palavra como uma lanterna numa paisagem nocturna: a paisagem já existe. As montanhas, os caminhos, as árvores e os rios continuam presentes, independentemente da luz que os ilumina. Contudo, a direcção do feixe luminoso influencia decisivamente aquilo que se torna visível em primeiro plano. Certas zonas ganham destaque; outras permanecem temporariamente na sombra. A lanterna não cria a paisagem, mas participa activamente na forma como ela aparece. As palavras desempenham frequentemente essa função.
Imaginemos que o tradutor pede a um participante: “Desenha um sentimento.” Antes mesmo de surgir qualquer imagem, a palavra já começou a organizar a experiência. O participante procura algo que reconheça como sentimento. A imaginação orienta-se numa determinada direcção. Se o pedido fosse diferente, por exemplo, “desenha uma memória” ou “desenha um desejo”, o território simbólico activado seria imediatamente outro. A palavra não determina completamente aquilo que será desenhado. Mas condiciona significativamente o espaço de possibilidades onde a imaginação irá procurar matéria-prima.
Mas a influência da palavra não se limita àquilo que ela designa. As próprias palavras possuem atmosferas emocionais diferentes. Não é exactamente a mesma coisa pedir a alguém que desenhe um “problema” ou um “desafio”. Da mesma forma, “desenha uma falha” não convoca necessariamente o mesmo universo imaginal que “desenha algo que gostarias de melhorar”. Embora as situações possam parecer semelhantes do ponto de vista racional, cada palavra transporta associações afectivas, expectativas e tonalidades emocionais próprias. A palavra não organiza apenas o tema do desenho; participa também na atmosfera através da qual esse tema será experienciado. Por essa razão, o tradutor precisa de ser um conhecedor da palavra na mesma medida em que é um conhecedor da imagem.
Tomemos um exemplo aparentemente simples: não é a mesma coisa pedir a alguém que desenhe “uma família” ou pedir-lhe que desenhe “a sua família”. No primeiro caso, o participante é convidado a representar uma ideia de família. Pode desenhar um ideal, uma fantasia, uma concepção cultural ou um modelo abstracto daquilo que considera ser uma família. No segundo caso, o convite dirige-se para uma realidade concreta e pessoal. A atenção desloca-se para a sua história, os seus vínculos e as suas experiências particulares de família. Os dois desenhos podem parecer semelhantes à primeira vista. Contudo, também podem revelar diferenças profundas. E essas diferenças não pertencem apenas ao participante. Pertencem igualmente à palavra que convocou a imagem.
Algo semelhante acontece com a própria sequência das palavras. Imaginemos duas instruções: 1) “Desenha o teu pai e a tua mãe” e 2) “Desenha a tua mãe e o teu pai.” As duas frases parecem transmitir exactamente a mesma informação. Contudo, a ordem das palavras cria pequenas prioridades sequenciais. A imagem que surge primeiro na consciência pode influenciar a organização posterior do desenho. Nem sempre isso acontece, mas a possibilidade existe. Se o pedido for ainda mais aberto, as consequências tornam-se ainda mais interessantes.
Imaginemos que o tradutor diz apenas: “Desenha os teus parentes.” Neste caso, o campo representativo expande-se significativamente. O participante pode começar pelo pai, pela mãe, pelos avós, pelos irmãos, por um tio ou até por um animal de estimação que considere membro da família. Aquilo que inicialmente parecia uma simples instrução transforma-se num espaço onde prioridades, afectos, identificações e relevâncias podem emergir de forma mais espontânea.
Paradoxalmente, aquilo que a palavra não especifica pode tornar-se tão importante quanto aquilo que especifica. Uma instrução excessivamente fechada pode produzir respostas previsíveis. Uma instrução mais aberta pode permitir o aparecimento de relações e significados que permaneceriam invisíveis sob uma orientação mais rígida.
É precisamente aqui que surge uma consequência frequentemente ignorada: o tradutor não participa apenas na interpretação do desenho. Participa também na construção das condições que tornam o desenho possível. Naturalmente, não controla aquilo que o participante irá representar. O desenho continua a pertencer ao participante. Contudo, as palavras escolhidas pelo tradutor ajudam a configurar o campo onde a imagem emerge. Nesse sentido, o tradutor não é apenas observador. É também participante. Quanto maior for a consciência desta responsabilidade, maior será a qualidade da observação posterior.
Por isso, não é de estranhar que a Gestalt da Alma desconfie de interpretações completamente descontextualizadas. Um desenho retirado da situação que lhe deu origem permanece uma fonte valiosa de observação, mas nunca constitui a totalidade da história. A imagem contém informação importante. Contudo, a pergunta que a convocou também faz parte dela. O desenho realizado em resposta à pergunta “desenha uma família” não é exactamente o mesmo fenómeno que um desenho realizado em resposta à pergunta “desenha a tua família”, mesmo que as imagens resultantes sejam visualmente semelhantes. Em ambos os casos, a paisagem observada é diferente porque a lanterna foi apontada para lugares distintos. Talvez por isso a tradução simbólica exija a observação simultânea de duas linguagens: a linguagem das formas e a linguagem das palavras.
O desenho fala através de linhas, cores, ritmos e composições. Mas muitas vezes é uma simples frase que abre, ou fecha, as portas através das quais essas imagens se tornam possíveis. Compreender verdadeiramente um desenho implica não observar apenas aquilo que apareceu no papel, mas também a pergunta silenciosa que lhe deu origem.
Contudo, já que temos vindo a afirmar o poder da palavra, porque não também questioná-lo? Muitas imagens emergem precisamente contra a instrução, desviando-se dela, contornando-a, transformando-a ou transcendendo-a. Nem sempre a imagem obedece à pergunta que a convocou. Por vezes, parece responder a outra coisa. Talvez seja precisamente nesses momentos de desobediência imaginal, quando a imagem se afasta da instrução, a contorna ou a transforma, que algumas das revelações mais interessantes se tornam possíveis.
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