A psicologia analítica de Jung concebe o arquétipo como uma estrutura psíquica universal e pré-existente que organiza a produção simbólica humana. No entanto, esta hipótese levanta uma dificuldade epistemológica que o próprio Jung reconheceu: os arquétipos nunca são observados directamente. O que observamos são símbolos, imagens, sonhos, narrativas e produções culturais, a partir dos quais inferimos a sua existência. Jung foi suficientemente cauteloso para distinguir o arquétipo em si (irrepresentável) da imagem arquetípica que dele emerge. Mas essa distinção foi frequentemente esquecida pelos seus seguidores, que passaram a tratar os arquétipos como conteúdos fixos e universais herdados de geração em geração.
Vale a pena perguntar se é possível preservar o que há de genuinamente fecundo na ideia junguiana (nomeadamente, a tendência da psique para organizar a experiência em configurações simbólicas recorrentes) sem recorrer a estruturas pré-formadas que a mente traria consigo antes de qualquer experiência.
A opção não é abandonar Jung, mas levar a sério a sua própria distinção. Se o arquétipo em si é irrepresentável e apenas a imagem arquetípica é acessível à consciência, então o que herdamos só pode ser a capacidade de formar essas configurações e não os seus conteúdos. Deslocar o foco da origem para a emergência é, nesse sentido, uma radicalização da lógica junguiana, não uma ruptura com ela. Os arquétipos deixam de ser entidades invisíveis anteriores à experiência para se tornarem organizações dinâmicas de significado produzidas pela própria vida psíquica; ou seja, configurações que se formam progressivamente através da interacção entre experiência, memória, cultura, imaginação, afecto e desejo. O universal não reside nos conteúdos, mas na predisposição partilhada por todos os seres humanos para condensar a experiência em estruturas simbólicas coerentes.
O ser humano encontra-se continuamente imerso num oceano simbólico. Pessoas, lugares, histórias, imagens, relações, emoções, fantasias e memórias são assimilados de forma maioritariamente passiva. Esta acumulação não permanece dispersa. A psique tende espontaneamente a organizar o caos da experiência em padrões relativamente estáveis — padrões esses, que não podem ser reduzidos aos elementos que os compõem. Tal como uma melodia não se encontra em nenhuma nota isoladamente, também um arquétipo não pode ser localizado numa única experiência, imagem ou memória.
É aqui que a teoria da Gestalt oferece uma contribuição decisiva. O seu princípio central afirma que o todo possui propriedades que não existem em nenhuma das partes isoladas. O arquétipo pode surgir assim como uma Gestalt emergente de significado: memória, cultura, imaginação e experiência constituem os seus elementos, mas o arquétipo emerge como uma nova ordem de organização que transcende a soma desses elementos. Não é um amontoado de símbolos com afinidades; é uma configuração simbólica de ordem superior.
Esta ideia encontra uma analogia fértil na teoria dos sistemas dinâmicos desenvolvida por autores como Steven Strogatz. Nos sistemas complexos existem os chamados “atractores estranhos” (strange attractors): padrões de organização que não correspondem a estados fixos, mas que exercem uma influência estruturante sobre o comportamento do sistema. O sistema nunca repete exactamente o mesmo percurso, mas tende continuamente a regressar à vizinhança desses padrões. Pense-se nos climas do planeta: o Saara e a Amazónia produzem diariamente condições atmosféricas diferentes, nenhum dia igual ao anterior; e no entanto, não esperamos encontrar uma floresta húmida no Saara nem meses de seca extrema no coração da Amazónia. Existe um padrão organizador que não determina cada evento particular, mas condiciona fortemente o campo das possibilidades.
Os arquétipos funcionam de forma semelhante. Não são imagens fixas nem conteúdos estáticos: são atractores simbólicos. Ao longo da vida, experiências, fantasias, desejos e memórias convergem gradualmente para determinados centros de gravidade simbólicos. O arquétipo da mãe, por exemplo, não corresponde a nenhuma mãe concreta nem a uma imagem universal herdada. É uma configuração emergente formada pela sedimentação de inúmeras experiências reais, imaginadas, desejadas e projectadas de maternidade — a qual passa a influenciar novas percepções, novas relações, novas produções simbólicas. O conteúdo varia de pessoa para pessoa, de cultura para cultura; a estrutura do processo é a mesma.
Compreendido desta forma, o arquétipo pode ser entendido como uma pergunta que a psique dirige a si mesma. Quando alguém é convidado a desenhar uma figura humana, uma casa, uma árvore ou um caminho, não está simplesmente a representar um objecto conhecido. Está a dar forma visível a uma condensação de significado que se foi construindo ao longo de toda uma vida. O traço revela a configuração actual desse atractor: não uma essência escondida nem um conteúdo universal pré-existente, mas a organização singular através da qual a psique de cada pessoa se tornou o que é.
O arquétipo não é, portanto, a origem do símbolo nem o seu resultado final. É a estrutura emergente que organiza o campo das possibilidades simbólicas: continuamente produzida e continuamente reorganizada pela própria actividade da psique.
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