Alma: Edifício ou Cidade?

Quando falamos de alma, nem todos os autores estão a falar da mesma coisa. Duas das concepções mais influentes do século XX — nomeadamente, a de Carl Gustav Jung e a de James Hillman — partem de pressupostos diferentes acerca daquilo que constitui a vida psíquica. Curiosamente, essa diferença pode ser compreendida através de uma metáfora visual bastante simples: a diferença entre um edifício e uma cidade.

Para Jung, a alma aproxima-se de um edifício. O ego habita apenas uma pequena parte dessa construção. Conhece algumas divisões, circula por determinados corredores, utiliza certos espaços e ignora muitos outros. Existem caves onde se acumulam memórias esquecidas, experiências reprimidas e conteúdos que raramente visitamos conscientemente, bem como, zonas que não apanham luz solar e outras luminosas. Existem pisos antigos, salas abandonadas e zonas da estrutura cuja existência mal suspeitamos.

Contudo, o elemento mais importante deste edifício não se encontra propriamente numa cave nem num último andar. Corresponde antes à própria arquitectura da construção. Existe uma lógica organizadora que articula todas as divisões num único conjunto coerente. O habitante desconhece inicialmente essa configuração global do edifício. Apesar de conhecer apenas fragmentos dispersos do edifício, à medida que percorre novos espaços e estabelece ligações entre eles, começa progressivamente a formar uma imagem mais ampla da sua estrutura total.

É precisamente essa totalidade potencial que Jung designa por Self. O Self não é apenas mais uma divisão do edifício à espera de ser descoberta — e nem sequer é, também, a mais importante: é a compreensão progressiva da configuração global. O processo de individuação pode ser entendido como a lenta aproximação a essa arquitectura invisível que organiza o conjunto da construção. Nunca possuímos completamente a planta do edifício, mas podemos aproximar-nos cada vez mais dela.

Contudo, essa arquitectura não elimina a existência de zonas contraditórias, fragmentadas ou relativamente autónomas dentro do próprio edifício. A unidade da construção não apaga a diversidade das suas divisões. Nesta perspectiva, os sintomas adquirem um significado particular. Quando algo numa determinada zona do edifício permanece ignorado ou desorganizado, os seus efeitos podem manifestar-se noutras áreas da estrutura. Tal como uma infiltração numa parte da construção acaba por afectar espaços aparentemente distantes, também conteúdos psíquicos não integrados podem produzir perturbações na vida consciente. O objetivo não consiste apenas em reparar danos localizados, mas em compreender de que forma cada divisão participa na totalidade do edifício.

James Hillman propõe uma imagem bastante diferente. Para ele, a alma aproxima-se menos de um edifício e mais de uma cidade. Uma cidade não depende de um único centro organizador nem de uma única lógica arquitectónica para existir. É constituída por bairros distintos, cada um com a sua atmosfera, linguagem, ritmo e carácter. O bairro de Afrodite não funciona segundo as mesmas regras do bairro de Cronos. O bairro de Hermes não obedece à lógica do bairro de Apolo. Nenhum deles é mais verdadeiro do que os outros; nenhum detém o monopólio da realidade psíquica.

Isso não significa, porém, que os bairros coexistam necessariamente de forma harmoniosa. Tal como acontece nas cidades reais, também na alma existem tensões, conflitos, rivalidades e disputas por influência. Certos bairros expandem-se, outros retraem-se; alguns procuram dominar a paisagem urbana, enquanto outros permanecem esquecidos ou marginalizados. Viver bem, nesta perspectiva, não significa descobrir uma estrutura profunda que unifique toda a cidade. Significa aprender a reconhecer a legitimidade dos diferentes bairros e a circular entre eles sem tentar reduzir toda a diversidade urbana a um único modelo de funcionamento.

A diferença torna-se particularmente evidente quando pensamos nos sintomas. Numa visão próxima da de Jung, um sintoma pode sugerir que algo na estrutura mais ampla do edifício necessita de atenção e integração. A dificuldade visível remete para relações mais profundas entre diferentes partes da construção. Em Hillman, a lógica é diferente: se um bairro da cidade se encontra degradado, isso não significa necessariamente que toda a cidade esteja comprometida. Significa apenas que aquele bairro precisa de ser visitado, escutado e compreendido. Não precisa de ser eliminado nem transformado noutro bairro. Precisa apenas de ser reconhecido naquilo que é.

Esta visão conduz a uma compreensão particularmente interessante da experiência humana. Quando entramos num determinado bairro da cidade, não permanecemos observadores neutros. O próprio bairro transforma temporariamente a nossa forma de ver o mundo. Quem passa algum tempo num bairro boémio começa a olhar para a realidade através de valores diferentes daqueles que predominam num bairro financeiro. Num contexto, a espontaneidade, a criatividade e a experimentação tornam-se centrais. No outro, a eficiência, o cálculo e a conquista de estatuto passam para primeiro plano. A cidade não muda apenas à nossa volta; muda também dentro de nós. Cada bairro convoca um modo diferente de sentir, imaginar e interpretar a experiência.

É precisamente neste ponto que a Gestalt da Alma encontra uma afinidade particular com Hillman. Quando observa um desenho, a Gestalt da Alma tende a vê-lo mais como uma cidade do que como um edifício. O interesse principal não reside em descobrir uma estrutura oculta que explique toda a imagem. O foco dirige-se para os diferentes territórios simbólicos que coexistem na representação, para as atmosferas que surgem, para as tensões entre formas, para as relações entre elementos e para os múltiplos modos de organização da experiência que se tornam visíveis. Um desenho pode conter simultaneamente bairros apolíneos e dionisíacos, zonas organizadas e zonas caóticas, áreas de contenção e áreas de expansão. A sua riqueza não resulta da redução dessas diferenças a uma única verdade, mas precisamente da observação das relações que estabelecem entre si.

Contudo, aproximar-se de Hillman não significa abandonar Jung. Uma cidade é composta por bairros, mas também por edifícios. E alguns desses edifícios são particularmente reveladores. A sua estrutura, a sua posição, a sua escala e a sua organização continuam a fornecer informações importantes acerca da forma como a experiência está a ser configurada. Ignorar completamente a dimensão estrutural seria perder uma contribuição essencial de Jung. Afinal, também existem formas recorrentes, padrões organizadores, centros de gravidade simbólicos e relações hierárquicas que merecem ser observados. A cidade não elimina o edifício; contém-no.

Talvez por isso a Gestalt da Alma procure ocupar uma posição intermédia. Reconhece, com Jung, que existem estruturas organizadoras da experiência. Mas reconhece igualmente, com Hillman, que a vida psíquica raramente se reduz a uma única arquitectura central. Entre edifícios e bairros, entre estruturas e atmosferas, entre totalidade e multiplicidade, a alma revela-se como um território mais próximo de uma cidade viva do que de uma construção perfeitamente ordenada. E talvez seja precisamente essa complexidade que torna cada desenho tão interessante. Porque, ao observá-lo, não estamos apenas perante uma imagem. Estamos perante uma cidade inteira, habitada por diferentes vozes, diferentes ritmos e diferentes formas de ver o mundo.

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