Trabalho há muitos anos na área do urbanismo e continuo a achar fascinante a forma como disciplinas aparentemente sem qualquer relação acabam por revelar estruturas semelhantes. À primeira vista, dificilmente alguém associaria o planeamento de cidades ao estudo dos desenhos, dos símbolos ou da experiência humana. No entanto, ao longo do tempo fui percebendo que, mesmo em temáticas muito diferentes, surgem frequentemente os mesmos princípios de organização. Mudam os contextos, muda a linguagem e mudam os fenómenos observados, mas certas formas de ordenar a realidade parecem reaparecer onde menos se espera.
Quando observamos uma cidade, tendemos a concentrar-nos naquilo que é visível: edifícios, ruas, praças, jardins ou infraestruturas. Contudo, qualquer urbanista sabe que a cidade não começa aí. Antes de existir uma única construção, existe já uma organização invisível do território. Existem planos, regulamentos, índices urbanísticos, usos previstos e zonamentos que definem aquilo que pode ou não pode acontecer em cada parcela de solo. A cidade construída emerge sempre de um campo prévio de possibilidades.

Talvez seja precisamente esta forma de olhar para o território que me leva hoje a reconhecer estruturas semelhantes nos arquétipos e na experiência humana.
Quando Carl Jung desenvolveu a teoria dos arquétipos, procurou descrever certos temas recorrentes que parecem atravessar culturas, épocas e indivíduos. A mãe, a casa, a árvore, o caminho, o herói ou o sábio surgem repetidamente em mitos, sonhos, religiões e produções artísticas. Estes temas parecem corresponder a domínios fundamentais da existência humana e funcionam como grandes organizadores simbólicos da nossa relação com o mundo.
Durante muito tempo, porém, interroguei-me sobre a forma mais adequada de compreender essa recorrência. E foi precisamente a partir do urbanismo que encontrei uma analogia que me parece particularmente esclarecedora.
Num plano municipal, uma determinada parcela pode ser classificada como zona habitacional, comercial, industrial ou de equipamentos. Essa classificação não determina aquilo que será construído. Limita-se a definir um conjunto de possibilidades. Um lote habitacional pode acolher uma pequena moradia, um prédio multifamiliar, uma casa senhorial ou um condomínio. O zonamento não produz a construção. Apenas estabelece um domínio específico de possibilidades dentro do qual diferentes formas podem emergir.
Contudo, a analogia não termina aqui. Certas zonas de uma cidade tornam algumas soluções mais prováveis do que outras. Um terreno junto ao centro urbano tende a atrair determinados usos. Uma avenida principal gera fluxos diferentes dos de uma rua secundária. O território não é apenas um conjunto de regras; exerce também uma influência sobre aquilo que tende a acontecer nele. De forma semelhante, os arquétipos não funcionam apenas como categorias simbólicas. Funcionam também como atractores da experiência humana. Organizam temas, convocam emoções, orientam significados e tornam certas formas de vivência mais prováveis do que outras.
Quando alguém desenha uma casa, por exemplo, não está simplesmente a representar um edifício. Está a entrar num território simbólico associado à pertença, à intimidade, à identidade, ao abrigo e à vida familiar. Quando desenha uma árvore, convoca frequentemente temas relacionados com crescimento, enraizamento ou desenvolvimento. Quando desenha um caminho, abre um campo ligado à direcção, à escolha ou ao futuro. O arquétipo funciona assim como uma espécie de zonamento simbólico da experiência, mas também como um atractor que orienta a emergência de determinados significados.
Contudo, tal como acontece no urbanismo, conhecer o zonamento não é suficiente para compreender a cidade. Saber que uma parcela é habitacional não nos permite saber que tipo de edifício ali será construído. Da mesma forma, saber que alguém desenhou uma casa não nos permite compreender a forma singular como essa pessoa vive o tema da pertença ou da intimidade. É precisamente aqui que a Gestalt da Alma introduz uma perspectiva complementar.
O interesse desloca-se da categoria para a configuração. A questão deixa de ser apenas “que arquétipo foi convocado?” e passa a ser “como foi organizado esse arquétipo?”. Uma casa desenhada no centro da folha não produz o mesmo efeito que uma casa colocada num canto. Uma casa enorme não comunica o mesmo que uma casa minúscula. Uma casa isolada num espaço vazio não estabelece as mesmas relações que uma casa rodeada de caminhos, árvores ou figuras humanas. O arquétipo permanece o mesmo; a configuração transforma-se.
Mas também aqui o urbanismo oferece uma pista interessante. O significado e o “valor” de um edifício não dependem apenas do próprio edifício. Dependem igualmente da rua onde se insere, da praça que o envolve, das vistas que estabelece, dos percursos que organiza e das relações que mantém com a envolvente. Um edifício isolado no vazio urbano produz uma experiência diferente do mesmo edifício integrado num bairro animado e cheio de vida. Em muitos casos, aquilo que dá significado ao edifício não é apenas a sua forma, mas o campo urbano em que se encontra inserido.

Talvez o mesmo aconteça com os símbolos. Uma árvore não adquire significado apenas porque é uma árvore. Uma casa não adquire significado apenas porque é uma casa. O seu significado emerge também das relações que estabelecem com os restantes elementos da composição. Distâncias, proximidades, hierarquias, centralidades, vazios e tensões tornam-se tão importantes quanto os próprios símbolos. O que observamos já não é apenas um conjunto de objectos, mas um campo de relações.
Poderíamos dizer que os arquétipos definem os grandes territórios da experiência humana, enquanto a configuração revela a arquitectura concreta que cada indivíduo constrói dentro deles. O arquétipo da casa abre o campo da domesticidade. A configuração mostra como essa domesticidade é vivida. O arquétipo da mãe convoca o universo da vinculação e do cuidado. A configuração revela a forma específica como essa relação se encontra organizada e é vivida.
Enquanto muitas abordagens simbólicas se interessam sobretudo pelos territórios da vida psíquica, a Gestalt da Alma procura compreender a sua morfologia. Não observa apenas os temas que aparecem, mas também as distâncias, centralidades, hierarquias, proximidades e tensões que organizam esses temas numa configuração concreta. Assim como uma cidade não pode ser reduzida ao seu plano de zonamento, também a alma não pode ser reduzida aos arquétipos que convoca. O que verdadeiramente nos revela uma cidade não é apenas o plano que a antecede, mas a forma concreta como esse plano ganha vida através das relações que nela se estabelecem. Assim parece suceder com a alma: Jung estudou os territórios da alma, mas a Gestalt da Alma procura estudar a sua urbanização.
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